Monday, June 19, 2006

(des)equílibrio

Trancou a porta e desceu. Só a memória lhe permitia travar a desaparição. Ou o medo que sentia dela. Olhou o tempo suficiente para todos os pormenores, catalogou os cheiros e marcou-os na mente. Desceu cada degrau com o olhar fixo, com a segurança de quem conhece o que pisa. Já não era a menina que subia as escadas a correr com a mãe, lá mais atrás, a segurar a mala do fim-de-semana nos avós. Hoje, era ela quem descia, cada degrau, com o olhar fixo, e uma mala na mão para a mãe.
Dentro do carro o João esperava-a de cigarro aceso. Não esperava nenhum conforto, não esperava nada daquele rosto impávido, daquelas mãos que um dia se sujaram na areia nas desforras do berlinde. Bateu com a porta do carro. Não disse uma palavra e não aguardava nenhuma em troca. Pousou as mãos no colo e olhou para o relógio. Queria impacientemente ouvir o motor a trabalhar, que algum barulho quebrasse aquele silêncio, também já ele mórbido. Um dedo tocou-lhe na cara. Virou lentamente a cabeça e olhou nos olhos do irmão.
- O que foi isto? – perguntou ele.
- Tocaste-me.
- Sabes porquê?
- Sei. Queres saber se eu ainda existo, tocaste-me para me sentires, para saberes que estou aqui.
- Não foi só isso. Queria-te mostrar a energia dos electrões dos átomos das moléculas das células da minha pele a repulsar a energia dos electrões dos átomos das moléculas das células da tua pele.
- João, vamos embora... Por favor, o pai está à espera.
Fora sempre assim. Desde pequeno. Era em alturas como aquela que ia buscar as suas ciências, a exactidão de pormenores que ninguém conseguia verdadeiramente comportar. O sinal à sua frente movimentava-se em cores. Verde. Amarelo. Vermelho. A impaciência remoía-lhe na barriga.
- Diana, ouve-me. Onde eu quero chegar é que tudo é energia, porque tu, enquanto ser definido, estás-te constantemente a movimentar, a repulsar e a criar energia, seja comigo a tocar-te, seja com o ar à tua volta. Simplesmente não sentes o ar porque é uma sensação tão constante que o teu cérebro despreza. Mas se abrires a porta, e houver uma deslocação do ar, vento, tu sentes! É como o amor da mãe… já o tínhamos desde sempre e parecia menor porque era constante, o nosso cérebro desprezava.
As lágrimas desciam timidamente pela face a baixo. Ela sabia que nem sempre esteve próxima, apesar de tão perto. Sabia que ele tinha razão. Era um amor tão presente que na sua inconsciência às vezes desprezava.
- Tudo, neste Mundo, é energia. Energia é o mais elementar a que podemos chegar. Essas lágrimas que choras, Diana… o que sentes, é energia. Todo o sentimento é um desequilíbrio energético: as tuas lágrimas, o meu toque, o sorriso que era da mãe. Diz-me, o que é para ti viver?
A garganta estava cada vez mais seca. Aquela conversa não era suportável, não agora. Não naquela situação. Limpou as lágrimas da cara e respirou fundo.
- Podes não ter pensado nisso. Mas independentemente do que respondesses, viver é decidir. Repara. Tu construíste toda a tua vida de acordo com o que decidiste, condicionada por algo ou alguém, mas foste TU que decidiste: vires buscar as coisas da mãe, olhares constantemente para o relógio ou para o semáforo, o curso que escolheste… Toda a tua vida é, e foi, um conjunto de decisões. E decidiste vir buscar as coisas da mãe porquê? Pelo que sentes. Pelos sentimentos que te consomem por dentro: tristeza, melancolia… Decides de acordo com o que sentes ou com o que irás sentir se decidires isso. Decidiste vir buscar as coisas dela porque sabias que te irias sentir em paz, mais perto dela.
A noite caía em Lisboa. A avenida que a viu crescer começava agora a descansar. E talvez apenas agora, ela começava a perceber verdadeiramente o sentido da vida. Agora que sentia o seu chão a desabar.
- Tudo, Diana, tudo o que vive, tudo o que sente… eu, o pai, os cães vadios ou a tua gata persa… somos parasitas de energia. Agora, a mãe não é mais do que matéria desprovida desta energia. Lembras-te em Ciências? “Na natureza nada se cria e nada se perde, tudo se transforma”. Nós, por sermos esses parasitas de energia, transformamos constantemente o mundo à nossa volta. Transformamos a energia criada no big bang e procedemos a alterações dos estados energéticos, a energia já existe, nós apenas a remodelamos.
- João, onde queres chegar? Porquê isto agora?
- O que te quero dizer é que a mais pequena decisão, toque, movimentação de energia, influi a criação de um Mundo completamente novo, é um bocado a teoria do caos: “a borboleta bate as asas em Nova Iorque e chove em Londres”. Piaget e Lavoisier disseram que “tudo tende para o equilíbrio”, os milhares de factores que constantemente te condicionam, que não podes controlar porque são consequências consequentes de outras pessoas espalhadas pelo planeta tendem a equilibrar-se e isso é…
- Energia…
- Isso, Diana… isso. A energia tende para o equilíbrio. Se tu te movimentas aqui, além sofre uma diferença. E Deus… Deus é isso. É a parte integrante da tua vida que tu, como individuo, não podes controlar, mas que influis também por que tomas as tuas próprias decisões e crias o mundo, também tu. Deus é a energia a tender para um equilíbrio. Se em todas as religiões do Mundo, Deus é tudo… Deus está em toda a parte, Ele só pode ser energia. Quanto mais sentires, mais perto de Deus vais estar…
- Quando fechei a porta, gravei na minha memória todos os pedaços da mãe. As palavras, os cheiros daquela casa, reforcei reminiscências de criança… de subir os degraus dois a dois sem cansar, dos tropeções frequentes quando tentava saltar os quatro últimos. Reuni em mim a energia da mãe, João…desinquieta-me o absurdo da morte.
A chave rodou na ignição e entre verdes e vermelhos nada mais que o silêncio estonteante perfurou o ar.

Friday, May 26, 2006

Sem título

(...)
Talvez um dia seja eu. Que me transforme em invisível apesar do saquinho de plástico na mão. Laranjas. Um saco com laranjas cujo odor me acompanhe. Se espalhe à minha passagem e marque a minha presença. Apenas um suave e agradável cheiro a laranjas acabadas de apanhar no meio de uma chuva miudinha e de um forte cheiro a gasóleo que perdura no ar.
Imagino-me a flutuar lentamente entre olhos que nao me vêem, corpos que não me sentem. Talvez me encoste ao de leve a alguém que passe, a alguém que espere impacientemente outro alguém que corre para ali chegar. Sentir. O quento dos corpos, o calor do olhar. Sentir a minha própria presença que de tão ténue parece que já não existe. Furar o silêncio que se instalou à minha volta com um sorriso que, por mais fugaz que seja, é meu. Só meu.
Reparo que os meus olhos estão semicerrados, movem-se lentamente e mesmo assim não pousam em lado nenhum. Vejo as horas mas o relógio desapareceu, o meu Mundo deixou de rodar e tudo à volta são imagens difusas, perdidas numa constante mutação.
A chuva cai agora em gotas pesadas que batem fortemente no toldo provocando um barulho insurdecedor. Levanto a cabeça e olho em redor. Lá no fundo, com o saco de maçãs na mão, o velho apoiado na bengala desaparece na esquina.
Exercício de Escrita Criativa - Continuação de um excerto do livro Azul-Turquesa, de Jacinto Lucas Pires

Tuesday, May 23, 2006

Lápis

s.m.2núm. 1 objecto cilíndrico ou prismático, de madeira, que envolve uma haste fina de plumbagina ou outro material apropriado e que serve para escrever ou desenhar; 2 objecto com que se escreve ou risca; 3 pequena haste confeccionada com substância medicamentosa ou cosmético para aplicação tópica (Do lat. Lápis (nom.), «pedra», pelo it. Lápis, «lápis»)


Encontrei-te no fundo da gaveta. És de carvão. Estás a meio. Escreves, desenhas, rabiscas, numa criação que não tem fim. Permites que apague o teu traço, que o altere, que o transforme em novas revelações. Outra e outra vez. Podes traçar negro. Marcar a folha de papel e não permitir que te apague com facilidade. Resistente. Teimoso. Ou talvez traces suave. Cinza. E com o toque incerto do dedo irás espalhar sombras pela claridade ofuscante do papel. Metamorfoseias-te consoante quem te pega. Podes dar voz à arte. Aos sonhos. Ser arma de escritores, pintores, estilistas. Esboçar casas, roupas, carros. Construir músicas, histórias, notícias. Espalhar-te em gestos largos e precisos numa folha de papel cavalinho, no caderno da escola, no guardanapo do café. Pego-te. Registamos a lista do supermercado. Escrevinhamos um pensamento na agenda. Esboçamos um desenho no canto do jornal. Rendo-me à magia que me dás de criar. Não paras e não acabas sem aviso. Partes-te. Conserto-te. Continuas. Perduras.
És originalidade. Liberdade. De recriar. De reformular. De voltar atrás. De mudar sem se notar. Sem alguém o perceber. Numa ponta do traço, a vida. Que se desenha e escreve sem voltar ao passado, sem emendas, nem reformulações. Na outra ponta do traço, tu. A criar algo à medida do nosso desejo, do nosso ideal de perfeição. Disposto a reconsiderar os impulsos iniciais, a permitir o regresso ao passado.
Com a tua ponta traço outro traço outra vez. Quebras-te e atiro-te para dentro da gaveta. É o teu fim, por agora.